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quarta-feira, 28 de março de 2012

Judy Garland - O Fim do Arco Íris

 Tive o prazer de assistir a última apresentação de Judy Garland aqui no Rio. A qual comento agora com vocês.


Judy Garland não é uma biografia narrativa como tantas outras, não tem a obrigação de ser didática muito menos educada com o espectador, é uma peça que simplesmente lhe convida para um passeio nos últimos dias de Judy Garland, considerada por muitos uma das maiores estrelas cantoras da "Era de Ouro" de Hollywood.
Com uma produção proporcional a estrela que protagoniza, Charles Moeller e Claudio Botelho acertaram mais uma vez, o espetáculo foi o segundo com mais indicações ao Prêmio Shell de Teatro. Tudo em Judy Garland funciona em perfeita sintonia, atores, luz, som, cenário, músicas... É um espetáculo de fato!
 Sem grandes dramas introdutivos ou qualquer estrutura clichê de musical com aquela primeira musica inicial, seguido de cena/música, cena/música, aqui temos um bom drama, aonde os momentos musicais são reduzidos em número, mas grandes em qualidade. Podemos ver de fato uma PEÇA, o que tem sido raro ultimamente, espetáculos musicais tendem a pender mais para a vertente "show espetacular" e esquecer a parte "teatro", fato esse que Moeller e Botelho tem salvo muito bem, vide "O Despertar da Primavera".
 Claudia Netto brilha como Judy, ela é uma atriz de qualidade gigantesca, tanto dramática como vocal, e nos emociona a cada entrada inusitada de Judy em seus mais ambíguos estados psicológicos. Com parceiros de tamanha grandeza - Igor Rickli e Francisco Cuoco - temos a mais franca e intensa trocação em cena, nada de exageros ou momentos desiguais, cada um completa o outro e o resultado é claro nos olhos dos espectadores, não há quem desgrude o foco da cena um minuto sequer.
 Cuoco, que já vem rotulado por seus trabalhos televisivos mostra uma vertente totalmente contrária e maravilhosa de seu trabalho, sendo um coadjuvante, substituto, generoso, artista! Anthony - seu personagem - emociona, diverte e narra quase que diretamente o desfecho da protagonista com todo carinho que se pode ter ao assunto. Ele cativa tanto Judy como o público, virando o confidente de ambos.
 Rickli também é gigante, contraponto de Judy e Anthony, cabe a ele ser a mão que bate e que ajuda, dando a continuidade a história e garantindo seu brilho ao lado dessas duas feras. Seu trabalho é cuidadoso, intenso, ele e Cuoco excitam a platéia em cada discussão, e isso é bom! O que precisamos é disso, trocas, seja em cena como com o público, ponto mais que merecido para os três.
 Com um cenário maravilhoso, cuidadoso aos detalhes, forte e impactante, temos a parte "espetáculo", o último show de Judy, o "The Talk Of The Town" surge repentinamente em cena e sua grandeza e sutileza encantam, é possível se sentir dentro dos palcos e shows antigos e delirar com as incríveis musicas que Judy nos apresenta.
 Vendo um contexto geral, o que parece é que esse espetáculo foi feito com todo carinho possível aos detalhes, como se fosse um presente. Talvez um sonho antigo do diretor ou um meio de se mostrar que no Brasil também podemos criar obras primas, mas o que não pode se deixar de perceber é isso, os detalhes, os detalhes de cada ator, de cada objeto de cena, de cada acorde tocado, Judy Garland ganha o público por ser poético, delicado mas avassalador. Tal como o furacão que leva Dorothy a um mundo que ela nunca ouviu falar, Judy nos leva a um outro patamar de observação, sentir e emocionar.

domingo, 4 de abril de 2010

O Despertar da Primavera - Spring Awakening

"O Despertar da Primavera", de Charles Möeller e Claudio Botelho

  Depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, O Despertar da Primavera chega a São Paulo causando um furor imenso, ouvi falar tanto desse musical que confesso que não aguentava mais esperar pra ver. Uma coisa era comum dentre os comentários, não ouvia nada de ruim, NADA mesmo! Nem pra ter um amigo recalcado que falasse "Ah eu canto melhor que o protagonista" ou "Nossa você viu o cabelo da fulana? É horrível!", parece que a dupla Charles Möeller e Claudio Botelho pensaram em tudo mesmo!
 A adaptação brasileira de Spring Awakening tem uma particularidade boa, foi autorizada a ser dirigida ao nosso modo, ou melhor, ao modo dos mestres Charles e Claudio. Não tivemos aqui uma réplica da Broadway, como muitos outros espetáculos que já passaram pelo Brasil, temos uma atitude ousada e muito bem pensada, que merece ser reconhecida ao máximo, visto que temos excelentes diretores no Brasil que pararam no tempo, possuem condições, criatividade mas não ousam dar a cara a tapa para tentar algo novo.
 Na peça tudo tem a mais perfeita harmonia, não temos cenários espetaculares que se movem de um canto ao outro, giram ou explodem, somente jogos de iluminação, uns 3 ou 4 panos que fecham a cena de background, um pano de boca de cena e nesse intervalo entre eles uns andaimes simples que criam um segundo andar para o elenco contracenar ou dar suas intervenções. Também não existem figurinos monstruosos que tiveram que ser importados da conchinchina ou da escandinávia, se o elenco faz duas trocas de roupa é muito, exceto os adultos que fazem vários personagens. O que temos de mais monstruoso nesse espetáculo - e que deveria ser levado a mesmo ponto em TODOS espetáculos - é o trabalho dos atores, esses sim merecem uma salva de palmas em pé pelo seu trabalho - eles e a direção claro -, eles são de uma dramaticidade tão grande que não precisam - e nem existe no espetáculo - ficar sapateando, dançando horrores ou cantando ópera para chocar o público, eles estão tão dentro dos seus respectivos personagens que conquistam o público a cada entrada, sem fazer nada demais, somente viver o personagem dentro da sua complexidade, muito bem explorada por toda equipe que os preparou para a peça.
 Não digo isso criticando os espetáculos que tem todas essas abordagens e criações, seria muito controverso, até porque faço parte de um espetáculo que tem justamente tudo isso. Falo isso no sentido de que as coisas nem sempre precisam ser extraordinárias para serem maravilhosas, as vezes a beleza mora no simples e não nos damos conta, as vezes o menos é mais, e isso é o que acaba valendo no final. Digo com a maior convicção, amei o Despertar da Primavera mais do que qualquer Hairspray ou Cats e se tivesse opção dos três escolheria por estar no elenco do mesmo. Não temos grandes globais para trazer público ao teatro, as pessoas vão porque é bom mesmo, porque ao assistir você chora, se desliga do mundo, invés de ficar olhando o relógio impacientemente pensando quantas músicas a gordinha ainda vai cantar até que você possa ir embora. O elenco é composto de pessoas jovens, novas e pouco conhecidas, porém muito talentosas, isso é legal, é ousado! Chega de repetição, as pessoas não aguentam mais ver sempre os mesmos atores interpretando milhões de papéis, ou como a crítica já diz, o ator X interpretando o ator X, pois nem isso mais eles fazem questão de dar, um mero diferencial em cada trabalho, isso é bom para nós, novos artistas, serve de aviso aos rodados, "atenção, uma nova geração está chegando, talvez seja a hora de vocês também ousarem se quiserem se manter no seu respectivo lugar".
 No Brasil temos um sistema educacional ridículo que nos condiciona a repetição e memorização, o que importa é o 2+2=4 e não o caminho que você levou, o raciocínio que fez até chegar ao resultado, por isso criamos uma geração de repentistas que não possuem criatividade ou não tem culhão para criar e se expor, pois quando uma pessoa cria e apresenta sua idéia as outras pessoas ela se expõe ao ridículo, temos medo disso, sim, pois o público ama criticar, mesmo não tendo capacidade de criar 10% do que viu! Felizmente ainda temos uns bons corajosos que nos fazem acreditar em um futuro diferente ou pelo menos nos motivam a pensar diferente e criar o nosso caminho, a Charles Möeller e Claudio Botelho, eu tiro meu chapéu!